De: Melany Kern | Para: Dançarinos da Escola Núcleo.

CARTA

V

A DANÇA TEM SIDO UM PRODUTOR DE POTÊNCIA DE VIDA E DE “ENCONTROS ALEGRES”?

Quero contar para vocês como foi minha entrada na escola Núcleo, como fui ao encontro a vocês, e dizer que esse encontro faz a minha vida mais feliz, esse encontro é sem dúvida, um encontro alegre e de muito amor.

Bom, eu sou amiga da Flávia (professora de teatro) há muito tempo, pois fizemos uma peça de teatro juntas, e nós sempre nos demos bem e sempre trocamos muito, muitas ideias, conselhos, sonhos, angústias, etc...  foi a Flávia que me indicou para dar aulas de dança no Núcleo. Tenho que assumir que no inicio eu tive medo, mas só um pouquinho. Então fui fazer a entrevista com a Sandra, e pra minha surpresa ela era uma mulher incrível, nada a ver com o que eu tinha de imagem de uma diretora de escola. Ela me recebeu muito bem, e disse que havia gostado da minha energia. Fique aliviada, pois ela havia notado algo que não se vê (energia) e isso já demostra sensibilidade, e quase no final da entrevista, ela finalmente perguntou se eu tinha experiência em dar aula para jovens “especiais”, e eu meio sem jeito e acanhada, disse que não. Ela abriu um sorriso e falou que isso era bom, pois ela não queria alguém que já tivesse uma fórmula pronta para dialogar com os alunos.

Nesse momento eu amei a Sandra, pois vi que ali se abria um grande campo de possibilidades, troca e aprendizagem, que eu seria feliz e poderia ser eu mesma à procura de novas relações.

E depois conheci vocês, aí foi uma coisa sem nome, não sei dizer o que senti, muita coisa misturada, então o “medinho” virou curiosidade, e sei que vocês ficaram mais curiosos ainda, e depois disso começamos a nos amar. Quero dizer que amor além de amor é também quando pessoas se encontram e disso nascem muitos frutos, muitas danças, descobertas, fichas que caem etc... eu amo vocês a cada dia, pois sempre nos surpreendemos!!

Todo mundo sabe que pessoas com síndrome de down ou chamados “especiais”, são carinhosos e gostam de abraçar e beijar, mas isso não é a maior manifestação de amor que vocês me mostraram, isso é apenas uma caricatura do que pensam de vocês. O amor que vem de vocês é quando a sinceridade entra na relação, essa sinceridade faz com que o diálogo seja verdadeiro e que a afetação seja mútua e real. É muito fácil se fechar para o outro, é muito normal não se entregar por completo nas criações artísticas, pois muitas vezes não estamos dispostos a nos rasgar e revelar coisas do nosso interior, mas nisso tudo não tem o Amor. O amor nasce da relação, não está só em mim ou em vocês, o amor está no nosso encontro no “entre”...no meio de nós, ele nos liga. Eu amo a sinceridade de cada um de vocês, a dança é legítima e “diz” o que quer e o que tem que ser dito naquele momento. As emoções brotam sem amarras, quantos já choraram, riram, brigaram e até travaram em nossas improvisações, tudo isso porque confiamos no outro para que possamos nos abrir a uma criação artística com mais potência e cunho transformador.

Esse nosso amor é uma sintonia fina que criamos ao longo do tempo, dia após dia em uma construção constante que a cada encontro se aperfeiçoa e se lapida.  Essa sintonia/amor é que nos permite uma comunicação não verbal, em que nos entendemos com o olhar, pelo estado de ânimo, ou com gestos.

Para que os improvisos aconteçam com tanta qualidade artística, foi preciso construir afeto entre nós, ele muda a qualidade dos nossos encontros, fazendo com que o dia seja mais produtivo, e transformador. Saímos melhores a cada encontro, pois a troca de experiência é muito rica e nos alimenta e nos modifica para melhor. Sem esse afeto, não teríamos construído tantos materiais artísticos ou descobertas profundas e pessoais, pois, não nos lançaríamos com tanta confiança na área da criação. O afeto é nossa conexão criativa. E o amor é a dança que brota logo depois dessa conexão criativa.

E esse amor/afeto/alegria/conexão criativa, só foram possíveis, pois, tivemos o tempo ao nosso favor. Estamos semeando essas sementes há cinco anos ininterruptos, isso é uma construção do nosso encontro e que com o tempo contínuo e sagrado, podemos regar, adubar, e colher nossa dança, a cada dia, a cada encontro. Nessa época em que tudo vem e vai com tanta rapidez e superficialidade, temos o privilégio de criar com amor e nos tornar alegres a cada dia. Está aí a qualidade de nossa dança. Ela é feita com amor em um ambiente afetivo. 

Aprendi muito com vocês esses anos todos, vocês me ensinaram a levar as coisas com menos peso, a rir mais, a vibrar mais com as minhas próprias conquistas!

Teve um dia que nunca esqueço, cheguei bem chateada e aborrecida, pois, eu não tinha sido aprovada na prova para tirar a carta de motorista, mas no meio do dia a Rê começou a festejar e rir e chorar de emoção, seu rosto estava vermelho de tanta alegria. Ela tinha conseguido amarrar o cadarço do seu tênis sozinha. Só nesse dia aprendi muita coisa, e na hora meu humor mudou, sua vitória era a minha vitória, senti orgulho de você, pois você é uma mulher incrível e eu, sortuda por ser sua amiga!

Com isso fiquei pensando sobre como nosso corpo funciona, como ele aprende a fazer algumas coisas e o tempo que isso leva, o caminho que ele traça. Eu aprendi a amarrar o tênis com uns seis anos e você com vinte e um, isso só significa que nossos caminhos foram diferentes, que o tempo agiu diferentemente para nós duas, eu amarrei com seis anos e nunca mais pensei nisso apesar do “meu-corpo-eu” carregar toda a história do dia a dia, até eu aprender a amarrar e ficar com essa memória viva para eu fazer isso por anos e anos sem precisar pensar, e para você era um desafio diário, um exercício de concentração para poder executar o movimento do laço. Mas eu me pergunto de onde vem tanta vontade e desejo para uma ação tão “corriqueira”?

Então entendi o quanto você é aberta para a vida, você realmente é um sistema aberto. Tive um professor que falava sobre isso, o nome dele é Jorge Albuquerque Vieira e ele dava aula de “Teoria geral dos sistemas”. Ele dizia que um sistema fechado não sobrevive; trazendo isso para o nosso cotidiano podemos ver que realmente isso é verdade, que uma pessoa “mais aberta” tem mais chances de viver e aprender coisas diferentes durante a vida, ela está aberta para os imprevistos do dia a dia e teria mais capacidade de improvisar diante das situações. Para ser aberta assim como você, penso que por trás haja um desejo enorme de viver. Sem esse desejo não haveria abertura alguma, e quando o desejo transborda em realização, acontece como foi com você: além de realizada a ação pode haver festa e choro para não passar em branco a conquista. Um filósofo que se chama Spinoza fala sobre o desejo, que ele é construção, é produção ou ainda “esforço”, é a vontade de gerar vida, elevar a potência. Acho que ele quer dizer também, que você não deseja apenas amarrar o tênis e sim, ver sua mãe orgulhosa, deseja não tropeçar mais no cadarço, que deseja andar mais segura, pois você é perseverante e quer permanecer da maneira mais potente possível ! (SPINOZA, 2010, Ética III)

Em seu livro “Spinoza uma filosofia da liberdade” Marilena Chauí diz sobre esse desejo em que Spinoza fala:

O desejo realizado aumenta nossa força de existir e pensar. Chama-se Alegria, definida por Espinosa pelo sentimento que temos de que nossa capacidade de existir aumenta, chamando-se amor quando atribuímos esse aumento a uma causa externa (o objeto de desejo). (CHAUÍ, 1995, p. 65).

Outra coisa, falei que amarrar o tênis era uma ação corriqueira, mas sei que não é óbvio saber amarrar o tênis, como não é obvio saber falar ou andar, ouvir, enxergar, contar os numerais, ler ou escrever, cada um de nós tem sua complexidade. E não nascemos agora há 29 ou 21 anos atrás, estamos nascendo há bilhões de anos, e demoramos todo esse tempo para sermos o que somos.

Esse mesmo filósofo fala também que um bom encontro eleva a potência de viver e um mau encontro diminui ou impede a potência de viver, e que quando estamos com a potência elevada sentimos alegria. (SPINOZA,2010, Ética)

Nossos encontros são geradores de alegria, percebo que vocês estão no topo de suas potencialidades, atentos e entregues para dançar os seus melhores. E eu alegre por poder dividir com vocês o que eu penso sobre dança e alegre por estar ali fazendo saltar de vocês o que há de melhor em cada um, olhando para potência que cada um é. Fico alegre por ver um tipo de dança, que me traz mais conhecimento e saber.

O encontro aumenta nossa potência de vida, a dança tem esse poder, e ela nos liga. A sala vira um grande gerador de energia, moléculas em movimento, calor, criação, vida.

Amo nossas improvisações, os corpos que dançam são corpos criativos cheios de desejos e ativos, que colocam no mundo um movimento que gera alegria em quem está lá para ver... eu tenho cada vídeo lindo de vocês!

Amo, pois vocês me permitem e se permitem a embarcar nas minhas propostas sem receio ou dúvida, navegamos juntos e nos divertimos muito em todos os encontros, acho que isso é uma grande prova de amor.

Confiar, dar as mãos e ir sem medo... Juntos, dançando para celebrar a vida em sua maior potência!

Obrigada a cada um por mergulhar comigo nessa dança, obrigada por cada dia de afeto, obrigada por se deixarem amar e amar também, afetarem e serem afetados.

O amor é coisa boa, é o Sim, o abrir-se, o ir-se...

Amo cada um de vocês, nosso encontro é criativo e alegre!

Seguiremos por mais tempo juntos e eu espero que o amor seja nosso elo ou ainda o nosso fruto.

A escola toda é amor!

Com carinho.

1 de Junho de 2015

Outono.

Como podemos ajudar?

Para dúvidas, visitas e mais informações!

Fale Conosco
11 3845 9988 | 11 3044 3744 | Cel: 97146-2479
R. Domingos Fernandes, 556 - Vila Nova Conceição, São Paulo – SP